Consciência espiritual: o Movimento do Amor

O olhar sistêmico nos convida a enxergar os desafios que nos atravessam a partir de uma perspectiva ampla. Essa perspectiva, ancorada no trabalho de Bert Hellinger, nos lembra que fazemos parte de sistemas, especialmente do sistema da nossa família de origem, o qual exerce profunda influência sobre nós.

Por meio de nossos pais e ancestrais chegou até nós o nosso bem mais precioso, a vida. Ao sistema familiar cabe essa grandiosa incumbência de transmitir a vida e preservar aquilo que Bert Hellinger chamou de Ordens do Amor (há outro texto no blog no qual desdobro mais esse assunto). Diante disso, vale lembrar que você e sua ancestralidade estão em profunda conexão, ainda que essa ligação nem sempre seja visível aos seus olhos.

Ao nascer, recebemos de nossos ancestrais heranças como a biológica, a material e a emocional. A abordagem sistêmica dedica-se especialmente ao cuidado da herança emocional, na qual, frequentemente, se encontram as raízes de muitos conflitos e sofrimentos humanos.

Um problema, no entanto, não pode ser solucionado a partir do mesmo nível de consciência que o gerou. A perspectiva sistêmica nos convida a ampliar o olhar sobre nossa história e a nos abrirmos para uma consciência mais abrangente, que Bert Hellinger chamou de consciência espiritual. Para compreender esse movimento, podemos reconhecer três níveis de consciência que atuam simultaneamente em nossa vida: a consciência pessoal, a consciência coletiva e a consciência espiritual. Cada uma delas influencia nossa forma de perceber a realidade, de nos relacionarmos e de responder aos desafios da existência. A cura sistêmica torna-se possível à medida que cultivamos e nos ancoramos no nível mais amplo dessas consciências.

O primeiro nível é a consciência pessoal, ligada à necessidade de pertencimento. A consciência pessoal é um tanto estreita e limitada. Ela orienta nosso comportamento a partir da necessidade de pertencer aos grupos dos quais dependemos para sobreviver, como a família. Quando estamos predominantemente sob sua influência, tendemos a dividir as pessoas entre boas e más e as situações entre certas e erradas. É essa consciência que nos faz experimentar a sensação de “boa consciência” quando agimos de acordo com as expectativas da nossa família, por exemplo, e de “má consciência” quando pensamos, sentimos ou fazemos algo que ameaça esse pertencimento. O medo de perder o vínculo com nosso sistema familiar e a culpa por fazer diferente dele fazem com que, muitas vezes, renunciemos a partes importantes de nós mesmos. Enquanto não desenvolvemos a capacidade de sustentar a culpa, bloqueamos nossa individuação por lealdades cegas, em prol de sermos aceitos, amados e de pertencer.

Em um nível mais amplo está a consciência coletiva, que busca manter o coletivo unido incluindo todos. Diferentemente da consciência pessoal, ela não distingue culpados de inocentes, bons de maus. Seu compromisso é com a força de coesão — e não apenas com o indivíduo. Quando surge um desequilíbrio, ela pode envolver um ou mais membros das gerações seguintes na tentativa de trazer uma compensação ao sistema. Seu propósito é garantir que todos tenham um lugar no sistema e o mesmo direito de pertencer. Ela também sustenta princípios como o equilíbrio entre dar e receber e o respeito à ordem de chegada entre as gerações.

Hellinger descreve ainda uma terceira dimensão: a consciência espiritual, também chamada de Movimento do Espírito. A consciência espiritual ultrapassa as limitações das consciências pessoal e coletiva e se orienta por um amor ainda mais amplo. Ela acolhe as pessoas tal como são e a realidade tal como é, para além dos nossos julgamentos, preferências ou dogmas. Aqui, “espírito” se refere a uma experiência íntima de conexão com algo maior do que nós mesmos. Seu movimento tudo vê, tudo inclui e tudo ama.

É a partir dessa compreensão das diferentes consciências que Hellinger desenvolve o trabalho das Constelações Familiares: um movimento do amor à serviço da reconciliação e da vida. Nessa perspectiva, acredita-se que, quando um movimento de reconciliação sistêmica acontece, seus efeitos podem alcançar não apenas quem participa diretamente de uma constelação, mas também outras pessoas ligadas ao mesmo sistema familiar. Por isso, a cura nunca é apenas individual, sempre coletiva. O movimento do amor, que advém da consciência espiritual, nos conduz a um profundo assentimento diante da vida.

Ao aprofundarmos o olhar sobre nossa história — inseparável da história da nossa família — deixamos, aos poucos, de carregar aquilo que pertence aos nossos ancestrais, honrando-os e devolvendo a cada um a responsabilidade por sua própria trajetória. Assim, tornamo-nos mais liberados de lealdades inconscientes, de culpas e de dualidades impostas pelas consciências pessoal e coletiva.

Quando honramos a vida que chegou até nós por meio daqueles que vieram antes e vamos nos sintonizando com a consciência espiritual, abrimos espaço para que o passado encontre repouso e para que a vida, no momento presente, possa ser habitada com mais liberdade. É desse movimento do amor que vamos sentindo, cada vez mais, uma abertura para seguir adiante.

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